Sentada no degrau em frente ao açougue, estava Nonela. Triste e com os olhos chorosos, pedia moedas a cada cliente que deixava o estabelecimento após as compras. A cena repetia-se todos os dias, durante meses. Por longos anos sua atividade foi esta. Nunca passou em sua cabeça pedir algo de comer, de agasalhar. Sempre moedas.
Joaquim comprava sua refeição todos os dias naquele açougue. E durante anos deixava os trocados, que lhe sobravam das compras, na mão negra e suja de Nonela que permanecia por horas estendida aguardando um pouco de gratidão.
Em um desses costumeiros dias em que Joaquim foi ao açougue e deixou os trocados na mão de Nonela, perguntou-se sobre aquilo ser algum tipo de recompensa. Se fosse, referia-se a quê? Não havia nada que Nonela fizesse para merecer tais moedas. O simples fato de estar ali, sem condições de se sustentar, não lhe dava o direito de receber caridades. Mas não dependia de caridade. Nonela era bonita, robusta, aparentava ter uns 30 anos apesar de já completar 43. Havia coisas que seu corpo e sua mente poderiam fazer para merecer a pequena contribuição. E isso Joaquim estivera a suspeitar.
Joaquim morava a quatro quadras do açougue. Caminhava de sua casa até lá todos os dias. E do açougue tomava o trem até seu trabalho. A maratona bem lhe servia, visto que seus 44 anos lhe agradeciam.
A quarta-feira nublada não impediu a figura chorosa de estar no degrau de costume para mendigar. E lá estava Joaquim, selecionando o melhor pedaço da carne para os bifes do almoço. Paga ao caixa a quantia de R$6,00 com uma de suas notas de R$10. O troco estava certo que iria parar nas mãos de Nonela. Joaquim fez um comentário qualquer com o açougueiro, que lhe questionou sobre algumas moedas deixadas nos degraus da calçada. O homem, sem entender muito, disparou um insulto de indignação pelo que acabara de ouvir. Deu de ombros e foi tirar satisfação com a pobre coitada Nonela a fim de conhecê-la melhor.
Próximo à pedinte pediu para sentar-se ao lado dela. Nonela, de forma indialogável, emudeceu a solicitação. No entanto, Joaquim mantém seu propósito e inicia uma série de perguntas, na sua maioria, sem obter respostas, a não ser a que respondia com gestos e olhares. Do balcão do açougue podia-se ver a imagem no degrau. O açougueiro presenciava um diálogo um tanto estranho. Observava Joaquim gesticulando com os braços, boca, mas não conseguia enxergar nada nem ninguém além daquilo. Talvez este alguém estivesse afastado, longe do seu campo de visão.
Joaquim tivera a noite mais confusa da sua vida. As palavras e frases ditas por Nonela o deixaram perdido em seu próprio sono.
Nonela perdeu o filho de quatro anos e o marido quando um terrível incêndio pôs fim a sua casa. As figuras mais importantes da vida dela haviam se tornado cinzas. Desde aquele dia, Nonela esteve perturbada, na busca por respostas. Alienada em um mundo que lhe foi ainda mais cruel. A justiça lhe daria a casa, os móveis, e tudo o que era concreto. Mas, obviamente, não lhe devolveria a família. Seu mundo tornara-se escuro e sombrio. Essa história ela relatou a Joaquim, que ficou atordoado prometendo dar uma nova vida a ela.
No dia seguinte, guiado pelo mesmo trajeto, Joaquim tem seu pensamento voltado a Nonela. Pensava sobre um projeto de vida que prometeria a ela. A cada metro percorrido, a tensão aumentava. Seu coração acelerado não via o momento de estar em frente à solitária Nonela. Os olhos deste homem avistavam o açougue e, portanto, os degraus. Os mesmos degraus em que Nonela permanecia horas e horas durante anos, mendigando centavos. O que Joaquim menos esperava era não encontrá-la, visto que era de costume aquela imagem aos seus olhos. Aquele foi o primeiro dia em que a triste Nonela não fora vista sentada no concreto degraudeado. E Joaquim, com muitas dúvidas em sua confusa mente, adentrou no açougue e, rapidamente, perguntou sobre Nonela. Sobre a mulher negra e triste que sempre estivera ali. Queria saber o seu paradeiro. A resposta do açougueiro soou estranha aos ouvidos dele: “Não me lembro de nenhuma mulher sentada em frente ao meu estabelecimento. Aliás, ontem percebi que falavas com alguém, talvez fosse esta mesma pessoa, mas confesso que nunca a vi antes”.
Joaquim era um poço de dúvidas e, partiu dali para o seu trabalho sem mesmo ter feito as compras de sempre. Completamente perdido e, com mais perguntas que antes tivera, inconformado com o que ele julgava ter sido um misterioso desaparecimento. Queria entender o porquê durante tantos anos ela agia desta forma. Para ele, o incêndio e a perda da família foram, sem sombra de dúvidas, as principais causas do trauma. Mas o que ele não compreendia era porque Nonela sumiria assim, da noite para o dia, mesmo ele prometendo ajudá-la.
Era comum o trem estar lotado. As pessoas espremidas e mal podiam respirar. Alguns vagões eram mais lotados que outros. Para os cidadãos trabalhadores que tomavam o transporte diariamente, pegar um vagão com espaços e lugares livres, era sinal de um dia de sorte. Depois de começar um dia medonho, nada melhor a Joaquim do que um lugarzinho para sentar e um ar para respirar, sem pessoas amontoando-se umas em cima das outras. Se isso era motivo de começar bem o dia, então Joaquim estava em seu dia de sorte. Mas se dependesse de tudo que viera lhe acontecendo, nem mesmo um vagão vazio iria deixá-lo menos preocupado. Apoiou-se em um corrimão de teto e, sem perceber que era o único ser humano daquele vagão que estava de pé, avistou uma linda mulher. Negra, com um fino rosto que disfarçava o olhar triste, coberta por uma linda roupagem, levantava-se para deixar o coletivo. Se Joaquim não tivesse estado um largo tempo conversando com Nonela, fixando seu olhar no dela, não teria tanta certeza de estar enxergando a mesma mulher que, por dias, a via pedindo trocados para seu sustento, e que sofrera tanto com a morte do filho e do marido lhe causando esse trauma. Naquele mesmo instante, muitas imagens, perguntas e respostas embaralhavam-se em sua mente. Como uma espécie de reflexo de pensamento acordava e o trem tornava a andar. Pela janela, do lado fora, ele percebera a linda mulher despedir-se com um olhar rápido para Joaquim que, ensandecido, se desespera para descer naquela estação. Não alcançou seu objetivo.
Mais uma noite de insônia e de pensamentos repletos de ambigüidades. Joaquim não cisma em outra coisa a não ser em Nonela e na mulher que vira no trem.
Um novo dia nasce. E Joaquim percebe o insuportável despertador avisar que está na hora de partir. Ele percebe o quão inútil foi o mecanismo do relógio pelo fato de ter permanecido acordado noite adentro. Levanta-se e parte para o seu caminho, na esperança de encontrar Nonela, no mesmo lugar em que estivera ausente o dia anterior, mas que, mais uma vez, lhe abate a visão de que ela não está lá, sentada e esmolando. Não vê outra saída a não ser contar a alguém tudo o que lhe ocorrera com a finalidade de saber e entender sobre o paradeiro desta, que lhe trouxe um mar de confusões para sua cabeça. Chega ao açougue faz ao açougueiro a mesma pergunta do dia anterior o qual lhe dá a mesma resposta. Joaquim, então, resolve lhe contar tudo o que lhe acontecera nos últimos dias e, espantosamente, ouve o seguinte relato:
“Talvez o que eu vá lhe contar agora, lhe deixe tão espantado quanto como eu fiquei ao ouvir toda sua história. Mas é tudo o que sei: Há quatro anos, um terrível incêndio abalou esta cidade. Uma família composta de três pessoas, aparentemente felizes, teve sua casa completamente tomada pelas chamas. A mulher, desesperada, gritava e chorava do lado de fora da casa. Seu filho e seu marido estavam lá dentro. Não puderam escapar e morreram carbonizados. Durante dias ela permaneceu vagando nas ruas, solitária e triste. Não dirigia a palavra a ninguém. Muitas vezes sentava nos degraus aqui em frente e chorava quase que um dia inteiro. Os órgãos públicos lhe deram uma nova casa, uma nova mobília, mas, infelizmente, não poderiam trazer seus entes de volta. Algumas semanas depois, nestes mesmos degraus, a mulher não suportou a pressão que a vida lhe dera e atirou contra seu próprio peito. Houve tentativa de resgate pelos médicos, mas o destino a levou. Ou pior, o desespero. O que mais me espanta nisso tudo é o nome dela. Virginia Nonela Ndour.”
Joaquim voltou pra casa, na esperança de dormir tranqüilamente. Momentos antes de seu relógio despertar, uma cena surge em seu sonho.
“Sentada no degrau em frente ao açougue, estava Nonela. Triste e com os olhos chorosos, pedia moedas a cada cliente que deixava o estabelecimento após as compras. A cena repetia-se todos os dias, durante meses. Por longos anos sua atividade foi esta. Nunca passou em sua cabeça pedir algo de comer, de agasalhar. Sempre moedas.”
Este foi o último sonho que ele teve antes de acordar e ver seu quarto tomado pelas chamas e de ouvir gritos desesperadores de seu filho vindos do quarto ao lado e, supostamente, de sua mulher, vindos do lado de fora da casa.
Na página de obituários do jornal do dia seguinte, a despedida a Joaquim Abelardo Ndour e a João Otávio Ndour, pai e filho vítimas de um incêndio, aparentemente, acidental. A esposa e mãe Virgínia Nonela Ndour sobreviveu a este trágico episódio.